Muito provavelmente vocês ouviram falar da capa da Vanity Fair com Caitlyn Jenner, antes conhecida como Bruce Jenner, o padrasto das Kardashians que se assumiu mulher há pouco tempo, e sua primeira aparição como Caitlyn foi na tal capa.
Caitlyn é transexual, ou seja, nasceu com o sexo biológico que não a representa verdadeiramente. Nasceu em um corpo masculino, mas sempre se sentiu mulher. Isso é identidade de gênero. Diferente de orientação sexual (não é opção sexual, hein mores!), que diz com quem você se relaciona sexualmente. Mas há tantas nuances dentro dessas nomenclaturas, tantos jeitos de amar e tantos jeitos de se aceitar, que isso é mesmo só o rasinho da história.

Livres será que as mulheres tem essa liberdade?

Lembro de um documentário que vi na minha aula da Antropologia e Gênero em que havia um casal que mudou completamente a maneira com que eu enxergava as coisas –e balançou todas as minhas verdades. Era um casal de trans, um nascido biologicamente como mulher, mas que se via como homem, e a outra nascida com o sexo biológico masculino, mas que se via mulher, mas nenhuma das duas havia feito a cirurgia de redesignação sexual. Biologicamente, um homem e uma mulher.

Mas na organização da relação, era diferente, e cada um se enxergava de gênero oposto. Parece confuso? Eu achei também. E depois me dei conta que somos muito prepotentes em querermos entender e dar nomes e delimitar tudo o que acontece ao nosso redor.

E aí, se não somos capazes de entender, damos um nome: aberração. Estranho, anormal, pecaminoso, monstro, errado…

Pensei muito nisso nesses dias de overdose de Caitlyn Jenner.

Eu não passo por nenhuma das lutas que Caitlyn passou –e ainda vai passar. Eu não sei o que é estar presa a um corpo que não me representa de nenhuma maneira, e à convenções sociais que não me deixam ser quem eu sou. Eu não sei nada sobre isso.

Eu sei, no entanto, que na comunidade LGBT são os transexuais os que mais sofrem violência e são vítimas de homicídio, e que o Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo.

O transexual é odiado e causa repulsa, pois não dá pra esconder o que ele é. Enquanto gays podem ser aceitos socialmente com mais facilidade “se não forem afeminados” ou “se não parecerem gays” (quantas vezes não ouvi alguém dizer que tal pessoa tudo bem ser gay, porque ‘não parecia gay’?), o transexual não esconde o que é. Uma alma num corpo que não lhe cabe. E quando é chegada a hora de deixar transparecer o que aquela alma é, não é ‘discreto’. É de uma vez, é brusco, é visceral. Depois de tanto tempo escondendo seu verdadeiro eu, não há porque ir aos pouquinhos. A vontade é de ser por inteiro.

Ao transexual muitas vezes é renegado todo tipo de dignidade. Se nossa sociedade tem dificuldade pra aceitar um casal de homens ou mulheres se abraçando em um comercial de perfume, quem dirá em aceitar uma pessoa que publicamente expõe que seu corpo não é aquele, sua identidade não é aquela? Mas para cada Caitlyn, Laverne, Andreja e Lea T -aplaudidas publicamente por sua coragem e sua luta– há milhares de trans sofrendo preconceito, abuso, violência e sendo empurradas cada vez mais à margem da sociedade.

Me choca ainda mais quando os donos dos olhares maldosos, das palavras grotescas e da violência (velada ou não) são aqueles que também sofrem para serem aceitos, que também têm suas lutas e que são vistos pela sociedade como diferentes ou menores. Mulheres, gays, lésbicas, negros… Mas ao invés de lutarmos juntos, decidimos que a luta de um é mais importante que a luta do outro, que tem mais valor. Parece que o objetivo é ter um lugar na mesa da maioria, do socialmente aceito. Uma vez na mesa, danem-se os outros.

Até porque, se todos se sentarem à mesa, ela não vai mais ser tão especial assim, vai? Dica: vai sim, pois quando todos se sentam, a companhia é muito mais rica e diversa e engrandecedora. Mas parece que tem um bichinho que pica a gente e faz a gente achar que nossas bandeiras são maiores, mais bonitas, mais reluzentes e merecem mais destaque. Cada um sabe o fardo que carrega, mas é super ok ficar caladinho quando alguém que passa por outras situações fala sobre suas experiências. Nem sempre é #mimimi, e não é porque você não entende ou não vive aquilo, que automaticamente se torna irrelevante. E é super ok também oferecer seu apoio, seu ombro amigo, sua voz pra gritar junto, mas nunca não gritar mais alto.

Tipo assim, ó: eu sou mulher, mas sou branca e hétero. Quando minhas amigas negras e/ou lésbicas e/ou trans falam sobre suas batalhas, eu só faço escutar, tentar entender e aprender o máximo que eu puder, e oferecer meu apoio.

Por que é tão difícil ter empatia? Aceitar e respeitar que cada um pode sim ter vidas e vivências diferentes? E que nós não temos que meter o bedelho ou achar certo ou errado. Quem somos nós pra acharmos alguma coisa que não nos diz respeito certo ou errada? Quem nos deu esse poder? Onde é que está escrito? Se alguma coisa ficou na minha mente depois de anos de catecismo foi “Não julgueis e não sereis julgados”. Ah e tinha outra coisa muito massa também, mais ou menos assim “Eu vos dou um novo mandamento; amai-vos uns aos outros.

Como Eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”. Mas nos parece muito tentadora a ideia de nos acharmos melhor do que os outros. Mais corretos. E mais: nos parece muito assustadora a ideia de não ter controle sobre o que acontece além dos nossos domínios. De não ter certeza absoluta sobre tudo. De não poder colocar cada uma das pessoinhas em caixinhas hermeticamente fechadas dizendo exatamente o que elas são.

Prefiro pensar que só há uma coisa que as pessoas são: livres. E se não são, ainda, vamos juntos lutar para que todos sejamos, um dia, livres. Para serem quem quiserem ser. Viver como quiserem viver. Amar como quiserem amar. E serem respeitados. E serem felizes.

ps: eu não sou expert no assunto, mas adoraria aprender mais, então se houver algum problema com terminologia, expressão, etc, sobre o assunto, fique à vontade pra me falar e desculpe de antemão pelo erro 🙂