Tive uma vida meio nômade. Já contei que me mudei mais de dez vezes de casa –inclusive já morei em sítio e em Goiânia– e por causa disso sempre mudei muito de escola.

Essa coisa de sentir que eu “pertencia” a algum lugar  não rolava muito comigo. E quando eu entrei na faculdade, e fui morar no CRUSP (o alojamento universitário lá da USP), o sentimento de nomadismo só aumentou. Eu passava os dias de semana lá e toda sexta lá ia eu com a minha mala pra casa do David e do Augusto (o gêmeo do Dá!), pra passar o fim de semana com eles.

Não há lugar como o lar

E na segunda eu voltava com a minha malinha. Algumas épocas eu ficava mais ainda na casa deles, e embora o Dá sempre tivesse feito eu me sentir o mais confortável possível, eu não me sentia totalmente.
Enquanto isso, meus pais se separaram e minha mãe foi morar com a minha avó, e toda vez que voltava (e ainda é assim) pra minha cidade natal, não era mais a minha casa.

Não me entendam mal, minha avó é maravilhosa e vir pra casa dela é sempre muito gostoso (comida e carinho de vó: puro amor), mas não é nossa casa.

Passei seis anos da minha vida sentindo que eu não tinha um lar. E só quem já se sentiu assim sabe como é uma sensação desoladora, quando se para pra pensar nisso. E principalmente quando você precisa de um lar. De um lugar seu. Daquele pedacinho que faz você se sentir melhor e conseguir organizar todos os seus pensamentos. Não ter isso por tanto tempo mexe com a nossa cabeça e parece que a vida toda fica em suspenso, meio no ar, meio como se todas as suas coisas –as que carregamos nas mãos e as que carregamos na cabeça- ficassem em barracas, num esquema meio improvisado.

Ainda lembro das tantas vezes que chorei nos ombros do David por sentir falta disso. Por querer desesperadamente encontrar meu lugarzinho, ter meu lar, meu refúgio. E embora estar ao lado dele sempre tenha sido confortante e meu porto-seguro em todos os momentos, minha natureza é independente demais, e eu continuava sentindo falta do meu espaço.

Engraçado pensar que encontrei isso onde menos esperava, de um jeito meio louco e com grandes chances de dar errado. Mas se tem uma coisa que aprendi foi a escutar minha intuição e meu senso de aventura, haha. Eu vi uma oportunidade de uma coisa totalmente nova na minha vida e agarrei. No começo meio reticente, mas hoje estou agarradinha com unhas e dentes.

Ano passado, quando consegui finalmente me mudar da USP, morei por um tempo em um apartamento muito delícia, mas que eu sempre soube que era temporário. Mas acabei criando um amor por aquele lugar e quando tive que sair, antes do previsto, sofri um pouco mais do que imaginei que sofreria. Eu realmente chorei e achei que ia ser infeliz, fiquei muito ansiosa, foi uma chatice. No dia da mudança eu estava tão borocoxó que achei que ia passar toda aquela tristeza pra minha casa nova e ia ser ainda pior.

Ledo engano, caros amigos.

Eu achei meu apartamento em um desses sites em que as pessoas disponibilizam quartos pra alugar (o que eu usei é o EasyQuartos, vocês sempre me perguntam), e quando vim conhecer e falar com o Nicolas descobri que aqui moravam mais dois meninos, além dele.

Eu fiquei bem reticente quanto a ideia, porque além de nunca ter morado com meninos, todos eram desconhecidos. Mas a minha intuição me dizia pra considerar a ideia, pra não abandonar de vez. Eu tava praticamente fechando com outra menina, pra dividir só com ela, quando tive um estalo.

E pensei: por que não me desafiar e me colocar diante de uma situação totalmente nova?

Quando eu vim pra São Paulo eu não sabia o que esperar, eu não tinha dinheiro, não tinha casa, não tinha nada, mas eu não me deixei intimidar.

E foi ótimo. Então por que não me dar a chance de viver algo novo, de novo?

E foi assim que me mudei pra cá. E assim encontrei meu lar. Pouco tempo depois de eu me mudar, um dos nossos roomies voltou pra cidade dele e, em mais uma mudança inesperada, o Nicolas escolheu o Simon e o Hugo pra morarem com a gente, um francês e o outro de Bauru, o casal mais querido desse mundo

Às vezes a gente acha que sabe onde vai ser feliz, que sabe exatamente como vai reagir a determinadas situações e que tem a receita pra tudo, resposta pra tudo quanto é dilema. E esquece que o inesperado chacoalha a nossa vida de jeitos maravilhosos. Temos que nos lembrar de nos abrirmos pro desconhecido, de vez em quando. E apreciar o que ele pode fazer por nós. Sempre será surpreendente. E na maioria das vezes, surpreendentemente sensacional.

É muito maravilhoso pra mim poder dizer que eu tenho um lar. Que eu me sinto em casa. Que eu sinto que pertenço a um lugar e que as pessoas que convivem comigo me fazem bem. E é ainda mais legal pensar que família tem muito mais a ver com laços que construímos do que com sangue que compartilhamos ou conceitos que nos foram passados. Não há lugar como nosso lar, com nossa família <3